saburo

Se você não tem paciência nem a coragem para ler este texto meu amigo nem continue, mas se você decide continuar te garanto que não vai se arrepender quando chegar ao final deste post. Este é um estrato do livro “Zero” de Martin Caidin, que possuo e recomendo ler, que conta numa das suas passagens a incrível historia de Saburo Sakai, que cumprindo uma missão de ataque é ferido em combate durante a segunda guerra mundial.

Cego de um olho, com duas balas na cabeça, o seu cranio estilhaçado e paralisado de um lado do corpo, Sakai conseguiu levar seu avião de volta para a base e pousar antes de desmaiar definitivamente.

Esta impresionante historia foi real, o homem permaneceu em vôo por quase 9 horas a maior parte desse tempo em condições físicas inacreditáveis. Então amigo leitor, senta numa posição comoda, relaxe e mergulhe de cabeça numa historia de vida que te leva aos verdadeiros limites da resistência humana.

Estrato do livro Zero de Martin Caidin sobre Saburo Sakai

Senti-me como se me tivessem golpeado na cabeça com uma clava. O céu se iluminou de vermelho e caí inconsciente. Verifiquei mais tarde que dois aviões inimigos e o meu começaram a tombar simultaneamente. Talvez dois terços do parabrisa tinham sido arrancados pelas balas das metralhadoras do inimigo.

Meu caça deve ter descido como uma pedra. Dentro de momentos, o ar frio que entrava pelo parabrisa destroçado fez voltar a mim. A primeira imagem que me veio à mente foi o rosto de minha mãe querida.

“Que há com você? Tenha vergonha, desmaiar com tão pequeno ferimento!” – Ela parecia censurar-me.

De uma altura de 5.400 caí cerca de 2.000 metros. O avião ainda tombava descontroladamente, quando subitamente pensei num ataque suicida.

Se devo morrer – pensei – levarei um navio de guerra americano comigo. Estes são preferíveis aos navios de transportes. Vi-os apenas alguns minutos antes; lembro-me deles muito bem. Os curtos e bojudos são navios de transporte, os longos e esguios são cruzadores. Se golpeasse um cruzador, teria o mérito de um bom piloto.

Enquanto pensava mergulhar sobre um navio de guerra americano, perscrutava o oceano. Não vi navio algum! Não via nada! O que havia de errado? Somente então constatei que meu rosto havia sido retalhado por numerosos fragmentos de granada. Eu estava cego.

O Zero continuou a mergulhar em direção ao oceano. Devido à crescente pressão do vento que rugia através da carlinga estilhaçada, e ao fato de o Zero aumentar de velocidade na queda, minha mente se envolvia na confusão, incapaz de avaliar as condições do motor ou da minha posição de vôo.

Estranhamente, não sentia dor.

Inconscientemente, pela força do hábito, empurrei a alavanca de controle. Aparentemente o avião emergiu de seu mergulho descontrolado e retomou a posição horizontal; a pressão do vento através da carlinga deve ter contribuído.

Tentei mover a alavanca de aceleração do motor. Minha mão esquerda estava entorpecida; não conseguia sequer flexionar os dedos. Quando tentei pisar no pedal do leme, para corrigir o vôo destrambelhado do Zero, verifiquei que minha perna esquerda também estava entorpecida.

Em desespero soltei a alavanca de controle e esfreguei os dois olhos com a mão direita. Esfregando duramente, comecei a vislumbrar a ponta da asa esquerda. Podia ver – embora confusamente – com minha vista esquerda! Conquanto continuasse esfregando meu olho direito, foi inútil. Não recuperei minha vista e o olho permaneceu cego.

Divisei através de uma brilhante fita vermelha, como se o mundo inteiro e tudo o que nele estava flamejassem violentamente. Bati minha mão e perna esquerdas com o mão direita, mas não senti nada.

Estavam ambos completamente paralisadas. Que acontecera? – continuei me interrogando vezes seguidas.

Bruscamente a dor explodiu na minha cabeça, uma dor de agonia, que me deixou fraco e sem fôlego. Experimentei tocar a cabeça com minha mão direita: voltou rubra de sangue.

Foi nesse momento, quando ainda arfava de dor na cabeça, que avistei algo preto correndo abaixo de minha asa esquerda, Com meu olho esquerdo, via confusamente o que pareciam grandes objetos negros agitando-se atrás da asa.

Conjeturava sobre o que poderiam ser, quando abruptamente, acima do ruído do motor, ouvi o crepitar de metralhadoras. Várias balas perfuraram as asas e o Zero tremeu ligeiramente com o impacto. Eu voava diretamente por sobre o comboio de tropas do inimigo!

Agora minha vida chegou ao fim! – pensei. Já afastara toda a esperança de sobreviver àquele vôo. Desde que recuperara, conquanto que precariamente, a capacidade de permanecer consciente e pilotar o avião, a qualquer momento poderia fazer um ataque suicida contra um navio inimigo. Não tinha sentido prolongar uma luta inútil. Aceita a inevitabilidade da morte, tornei-me calmo e avaliei melhor as condições do avião. E então pensei:

Não derrubei diversos aviões inimigos hoje? Provavelmente elevei para sessenta o meu total. Mandei todos aqueles aviões para o mesmo destino ao encontro do qual partia agora. Agora é minha vez. Sempre esperei que isso acontecesse. Nesse mesmo dia cometi o maior e o último erro de minha vida, quando confundi os bombardeiros TBF inimigos com aviões de caça. De qualquer maneira, finalmente deparara com aviões da Marinha Americana, pelos quais esperara tanto tempo. Não há nada de que me tenha de arrepender.

“Nesse instante comecei a pesar as possibilidades de vida ou morte.

Já sei, disse comigo. – Se puder, enfrentarei um avião inimigo e deixarei que me vença. Morrerei como um piloto em combate aéreo. Sempre haverá tempo para mergulhar contra um navio inimigo. Aguardando um ataque de caças inimigos, muitos dos quais deveriam estar no ar para proteger o comboio de tropas, comecei a descrever grandes círculos.

Os minutos passavam lentos. Nada aconteceu. “Virão eles, afinal? Ouvirei subitamente os sons da metralha quando os caças inimigos mergulharem sobre o meu Zero? Esperei voando sem objetivo, mas nada aconteceu. Parecia que estava sozinho no céu.

Olhei para o mar embaixo, e notei que meu avião rumava para Tulagi. Quando minha cabeça melhorou e eu podia ver mais claramente com minha vista esquerda, alcancei o acelerador com a mão direita e empurrei a alavanca. O motor rugiu e o Zero arremeteu para frente.

Se continuar assim – pensei, – poderei ganhar altura. E se a sorte não me abandonar, poderei até mesmo alcançar Shortland, ou Buka, se não a própria Rabaul.

Apesar de ter aceitado a morte como inevitável, ainda assim era humano e desejava procrastinar a morte tanto quanto possível. Se o avião continuasse a voar e eu permanecesse consciente, eu teria boa chance. Mas primeiramente teria que deter a hemorragia. Tirei as luvas e examinei meus ferimentos.

Como o ferimento na cabeça me parecesse o mais grave e ainda sangrasse, inseri o indicador e o dedo médio através do rombo do meu capacete de vôo. Os dedos penetraram fundamente na ferida que senti pegajosa e áspera. Obviamente a ferida era profunda, rompidos que estavam os ossos do crânio. Por incrível que pareça, minha cabeça estava clara agora e começava a ver melhor do que antes.

Tateando os ferimentos, lembrei-me da estória sobre Ryuma Sakamoto, um corajoso samurai, que permanecera vivo depois de um assassino lhe ter infligido terrível cutilada. Bem, se a sorte continuasse, alcançaria Shortland. Tentaria lá chegar, se possível.

Algo deve ter entrado em minha cabeça – pensei. Sentia-a pesada e a hemorragia continuava. (Um exame médico posterior descobriu duas balas de metralhadora alojada em meu crânio ) . Sangue quente pegajoso escoria ao longo da nuca, embebendo-se no cachecol e no colarinho de meu uniforme de vôo. Coagulava-se numa viscosa e desagradável mancha.

Partes do meu rosto e cabeça estavam expostos ao vento e pareciam retalhadas como uma tábua corrugada. O sopro do vento pelo parabrisa estilhaçado secara o sangue, transformando-o numa pasta que me cobria o rosto.

Ainda me encontrava em sérias dificuldades. Não conseguia ler os pormenores na bússola por causa do olho direito ainda cego, e a visão pelo olho esquerdo era confusa.

Para alcançar Shortland, teria que retraçar o curso geral que havíamos percorrido em direção a Guadalcanal naquela manhã. Mas não conseguia determinar a direção certa. Não conseguia valer-me da bússola.

Felizmente, durante o vôo a Guadalcanal, eu tentara preparar-me para uma emergência na eventualidade de minha bússola entrar em pane, e me encontrar afastado dos companheiros. Concluí que o melhor método de determinar a direção adequada seria tomar leituras das posições do sol.

Cuspi repetidamente sobre a mão direita, esfregando continuamente os olhos. Mas era inútil; nem sequer conseguia encontrar o sol! Com o crescente desespero de minha situação, o único consolo era o fato estarrecedor de que o avião, de alguma maneira, conseguia manter-se em vôo, a despeito dos pesados danos que sofrera. Por todas as razões, o caça já se devia ter desintegrado há tempo.

Incapaz de fazer algo, no momento, para acertar a direção adequada a fim de alcançar Shortland, tentei novamente deter a sangria da cabeça. Trazia sempre comigo bandagens triangulares. exatamente para uma tal emergência. Tentei aplicá-las nos ferimentos da cabeça, a ver se estancava o sangue. O vento tornou infrutíferas as duas primeiras tentativas. Era extremamente difícil ajustar a bandagem em torno da cabeça, porque devia simultaneamente pilotar o avião, e minha mão esquerda estava paralisada.

Antes mesmo de perceber, as bandagens haviam desaparecido e minha situação não melhorara desde o instante em que havia começado. Desprendi o cachecol do pescoço. Segurando uma ponta com o pé direito, cortei o cachecol em quatro pedaços com uma faca apertada entre os dentes. Três dessas bandagens feitas do cachecol foram arrancadas pelo vento. Fiquei apenas com um pedaço.

Forcei-me à calma. Fora por demais impaciente e manipulara desastradamente as bandagens e as tiras do cachecol. Para reduzir a pressão do vento tanto quanto possível, baixei o assento até o extremo limite. Coloquei então os controles do motor e a alavanca de controle em posição que permitisse o avião voar sozinho, e comecei a aplicar o último pedaço de bandagem na minha cabeça.

Segurando uma das pontas da tira do cachecol com os dentes, para evitar que o vento a levasse, com a mão direita empurrei-a polegada por polegada entre o espaço entre minha cabeça e meu capacete. Segurando o fôlego, apertei a jugular do capacete tanto quanto possível. A hemorragia cessou. Senti que minha luta com as bandagens havia durado pelo menos meia-hora.

Quando pensei que podia relaxar-me, fui assaltado pelo pior inimigo: uma invencível sonolência. Parecia-me mergulhar no sono, num torpor morno sem dor nem resistência. Com imensa dificuldade lutava contra o desejo avassalador de dormir.

Quando, finalmente, consegui manter aberto o meu único olho são, e olhei em torno, verifiquei com grande espanto que o Zero voava de borco. Rapidamente empurrei a alavanca e corrigi a posição de vôo.

Sabia que se não me mantivesse inteiramente alerta de agora em diante, mergulharia para a minha própria morte. Apertei os punhos contra a cabeça; a dor resultante manteve-me desperto por algum tempo.

Em alguns minutos aumentou a cruciante dor na minha cabeça, a ponto de se tornar quase insuportável. Pensei que ia gritar. O rosto parecia atravessado por uma chama ardente. Estava sendo queimado vivo. Mesmo assim, ondas de exaustão esbatiam-se contra mim, mergulhando-me na sonolência outra vez. O Zero cambaleava no ar quando minha mão afrouxava. Mesmo a terrível dor dos ferimentos não me manteria desperto. Fui obrigado, várias vêzes a bater na cabeça com meu pulso direito.

De alguma maneira mantive meu Zero no ar, voando em linha reta e no mesmo nível. Mesmo nessa agonia, a sonolência lançou suas ondas sobre mim; e de cada vez eu as expulsava batendo com a mão fechada contra a cabeça.

Lutava desesperadamente para manter-me desperto. Sabia que não me seria possível continuar o vôo nessas circunstancias por muito tempo. Pensei subitamente em minha merenda; ainda havia alguma na carlinga.

Com as mãos ensangüentadas, empurrei os bolos de arroz para dentro da boca, forçando-me a comer. Consegui mastigar e engolir três pedaços, mas quando comecei a comer o quarto, subitamente senti enjôo e devolvi tudo o que havia engolido. Meu estômago não aceitava comida.

Novamente o sono desceu pesadamente sobre mim, obrigando-me a martelar a cabeça para manter-me consciente.

Se continuasse a sucumbir a sucessivos ataques de sonolência, sabia que cedo ou tarde eu cairia no sono, e isso representava o fim. Jamais alcançaria Shortland ou Buka. Conclui que seria melhor voltar a Guadalcanal e mergulhar sobre um navio inimigo do que afundar no oceano caso adormecesse ou se esgotasse o combustível.

Quando voltei a frente do Zero para a área de batalha, minha cabeça miraculosamente clareou. Meus sentidos estavam aguçados, e senti-me bem desperto. Novamente voltaram as esperanças de regressar a uma base japonesa. Voltei o avião outra vez e rumei na direção que julgava me levar para casa. Por alguns instantes a sonolência voltou.

A essa altura, movimentava-me por puro hábito. Pela terceira vez voltei o avião para a área de batalha em Guadalcanal, decidido a um ataque suicida. Foi uma sucessão de estados de alerta e de sonolência avassaladora. Repeti as manobras, virando o avião ora para Guadalcanal, ora para minha base.

Defrontava-me com o dilema de um instinto todo-poderoso de autoconservação e o forte desejo de encerrar esse vôo enlouquecedor com uma morte gloriosa. De alguma maneira, cada uma dessas emoções conseguia sua vitória e inconscientemente eu voltava o Zero, para frente ou para trás.

Tornei-me inteiramente cego outra vez. Uma sombra de ilhas que eu tinha visto desapareceram abruptamente, e, em seguida o painel de instrumentos mergulhou na escuridão. A minha situação era a pior possível. Não lograva mais saber em que direção ficavam Guadalcanal ou minha base. Tentei esfregar meus olhos com saliva, mas quando cuspi na minha mão nada saiu de minha boca. Tão seca estava que não restara um traço de saliva.

Tudo começou a sair-me errado. Estava perdido e inteiramente cego, meio paralisado, e com um avião destroçado. O Zero começou a jogar violentamente, sacudindo-se quando perdeu a estabilidade. Pendurei-me desesperadamente na alavanca de controle, tentando manter o nível do avião apenas pelo tato.

Repentinamente a luz me voltou! Linhas brancas raiavam diante de mim em tremenda velocidade. O Zero estava quase sobre as águas! As linhas brancas eram as cristas das ondas, que se erguiam exatamente abaixo das asas do avião.

No minuto seguinte vislumbrei uma ilha à minha frente. Deus me salvou! – gritei. Mas quando me aproximei, a “ilha” metamorfoseou-se em nuvem de chuva, acastelada sobre as águas. Esse equívoco se repetiu por diversas vezes.Voei a esmo durante quase duas horas.

Finalmente, com minha cabeça melhorando constantemente, pude ler a agulha e as grandes letras da bússola com meu olho esquerdo. Minha chance de regressar à base japonesa era melhor do que nunca, desde que fora ferido.

Levando em conta o meu vôo a esmo, julguei que minha posição ficava seguramente a norte-nordeste das Ilhas Salomão.

Com as mangas do meu uniforme de vôo, esforcei-me por remover O sangue do meu mapa lambuzado, e o estendi sobre os joelhos. Marquei com “X” o local onde julgava estar. Girei então noventa graus para oeste, esperando cruzar as Ilhas Salomão, que se estendiam de norte a sul.

Quarenta minutos após, avistei um recife em forma de ferradura. Era uma das Ilhas Verdes, que, devido à sua forma peculiar, me haviam chamado a atenção no vôo matutino.

Se continuasse assim, em breve tudo estaria bem. Estivera em situação desesperada por algum tempo, mas parecia que agora estava no caminho certo de uma base japonesa. Nada é mais desencorajador para um piloto do que perder-se, principalmente quando o combustível se está esgotando.

O perigo de perder-me estava assim conjurado, mas quase imediatamente se abateu sobre mim outro incidente quase fatal. Mal havia colocado o Zero em seu novo curso, quando o motor parou, e o caça começou a despencar para o mar. O combustível dos tanques principais se exaurira, restando apenas quarenta galões do tanque de reserva.

Para economizar combustível, vinha mantendo o motor alimentado por quantidade de combustível tão minguada que não mais pegou quando liguei o tanque de reserva. Soltei a alavanca de controle e movimentei a do acelerador para a frente e para trás com minha mão direita, alternando os movimentos tão rapidamente quanto podia para manipular a bomba de gasolina.

O Zero chegava já à superfície das águas quando o motor pegou. Eu estivera operando freneticamente a alavanca do acelerador, trabalhando a bomba de combustível, e tentando prolongar o vôo planado – tudo isso com um braço e uma perna paralisados e o olho direito cego. Eu estava coberto de suor frio.

Não demorei a avistar a Ilha de Nova Inglaterra. Rabaul não estava longe, e minhas esperanças de alcançar minha própria base cresceram rapidamente. Comecei a ganhar altura lentamente, para tomar o caminho mais curto através da ilha.

Subir requeria mais combustível, A despeito do desfalque em minhas reservas de combustível que se exauria rapidamente, tinha que tentar ganhar certa altitude. Abruptamente minhas esperanças se desvaneceram. Uma negra nuvem de borrasca apareceu diretamente à minha frente quando havia subido até 1.500 metros. Minha única alternativa era bordejar a costa da ilha. Não me atrevi a correr o risco de mergulhar através da borrasca.

Mudei o curso para sudoeste. Abaixo de mim apareceram várias esteiras brancas no oceano. Aparentemente eram navios de guerra japoneses que rumavam a todo vapor para o sul. Se pousar na água, ao longo dos navios, – conjeturei – poderei ser recolhido. Mas isso poderia significar uma protelação de importante missão dos navios. Não posso fazer isso. Mantive meu curso para Rabaul.

Os minutos voavam enquanto o motor zumbia. Conquanto muito cansado, não mais me assaltava a sonolência que antes quase ocasionara minha morte. Instantes após – não lembro o tempo exato – perscrutei a ilha debaixo de minha asa direita. Notei uma grande cratera no solo. .. era a cratera da pista aérea! É Rabaul!

Era difícil acreditar no que via. Tudo parecia como num sonho.

Mais tarde, verifiquei que estivera oito horas e meia no ar naquele dia.

Aterrissar o Zero seria extremamente difícil, uma vez que minha mão esquerda estava paralisada e meu controle do leme seria precário. Tinha poucas esperanças de conseguir um pouso seguro, uma vez que o Zero havia sido tão severamente castigado pelo fogo do inimigo que era um milagre que o avião ainda se mantivesse no ar. Nesse caso, a única regra válida era pousar no mar. Mesmo que o avião naufragasse, o piloto poderia ser salvo pelos barcos salva-vidas que estariam esperando.

Preparei-me para descer na água, soltando levemente a alavanca do acelerador. Gradualmente o avião perdeu altura quando o coloquei a favor do vento. No momento em que descia para o mar, mudei de idéia.

Estava certo de que minhas horas estavam contadas. Mesmo que pouse com êxito na água e seja recolhido, – pensei – não viverei por muito tempo. Envergonho-me de haver considerado a hipótese de causar tanto trabalho a meus amigos, que recolherão um homem de nenhuma serventia para o futuro. Conquanto mais perigoso, pousarei diretamente na pista e pouparei todas as dificuldades que a descida na água possa criar.

Interrompi minha lenta descida e comecei a descrever círculos por sobre o campo, estudando a pista a ver a melhor maneira de aterrissar. Depois de sobrevoar sem êxito a pista, decidi verificar se o trem de aterrissagem descia. Tinha poucas esperanças que funcionasse, uma vez que o avião fora tão rudemente atingido pelas balas. Mas a luz verde na carlinga se acendeu, indicando que as rodas de pouso haviam descido adequadamente. Ainda mais estarrecido fiquei quando os pingentes de aterrissagem deslizaram para baixo das asas. Não há por que desesperar! – pensei.

As perspectivas de um pouso seguro pareciam ser boas uma vez que o trem de aterrissagem e os pingentes haviam descido. Dirigi-me a uma das pontas da pista e comecei a descer. Na incerteza do que aconteceria durante o pouso – o trem de aterrissagem poderia sofrer um colapso – desliguei o botão de ignição para reduzir as possibilidades de incêndio ou explosões. Habitualmente podia desligar facilmente o botão da ignição com a mão direita, mas agora era impossível. Consegui finalmente atingi-lo com a perna direita, depois de contorcer-me tanto quanto permitiam perna e braço esquerdos paralisados.

Calculando minha altitude e meu ângulo de descida pelo topo dos coqueiros, que confusamente divisava, mergulhei para a pista. Controlava o avião num estado de torpor, até que me pareceu que as rodas tocavam o solo.

Com o botão da ignição desligado, a hélice deixou de girar imediatamente após o avião tocar o chão. Pude sentir a aeronave diminuir a velocidade enquanto rolava pela pista.

O indescritível sentimento de que, por fim, estava de volta ao solo seguro encheu-me o corpo e a alma, um momento supremo que pertence apenas a um piloto, e não pode ser explicado a um outro qualquer.

Cheguei! Esse pensamento atravessou jubilosamente a minha alma. Talvez em face do súbito relaxamento da tensão, novamente as ondas de sonolência se abateram sobre mim. Dessa vez não houve resistência; entrei num mundo confuso de névoa vermelha. Não me lembro de quase nada do que aconteceu em seguida.

Antes de perder inteiramente a consciência, senti mãos que me seguravam os ombros e vozes gritando o meu nome. Gritavam: “Sakai, Sakai, nunca diga morrer!”.

Vários homens treparam para as asas do maltratado Zero. Eram eles o comandante Kozono, o oficial aéreo tenente comandante Nakajima, meu comandante de grupo, o tenente Sasai, meu líder de esquadrilha. Os três homens desataram meu pára-quedas e meu cinto de segurança, levantaram-me da carlinga, e levaram-me cuidadosamente para o solo.

Relataram-me posteriormente que meu rosto estava tão ensangüentado e tão terrivelmente inchado que eu parecia um ser estranho de outro planeta, de tal maneira que até meus pilotos me temiam e ficavam à distancia.

Esse relato de Saburo Sakai é uma narrativa quase além de toda crença. Não somente na Marinha Japonesa, mas entre todas as marinhas do mundo este episódio avulta sobre todas as histórias de coragem e de heroísmo. Não acreditamos que o feito de Saburo Sakai e seu caça Zero, de um só motor e um só assento, tenha sido igualado em toda a guerra. Isso não representa menosprezo por outros episódios heróicos da guerra aérea, que são familiares aos escritores. Sakai pilotou seu pequeno caça durante quase nove horas, incluindo o tempo de combate, no qual abateu quatro aviões inimigos, elevando o seu total a sessenta, e cobriu uma distancia de 560 milhas durante sua desesperada luta para voltar à sua base.

Os feitos de Saburo Sakai e os da unidade a que pertencia atestam vivamente a excepcional perícia de Sakai e a de seus companheiros. Era uma perícia conseguida mediante constantes práticas de combate, e adequadamente secundada pela alta qualidade do caça Zero.

Sakai permaneceu no hospital, sob tratamento médico, durante um ano após essa batalha. Recuperou-se de todos os ferimentos, com exceção de seu olho direito, cuja visão jamais voltou. Em 1944, quando as forças americanas lançaram um assalto maciço contra as Marianas, Sakai foi destacado para Iwo Jima do Grupo Aeronaval de Yokosuka, ao qual fora designado depois de receber alta no hospital. A despeito da cegueira de um olho ele retornou aos combates aéreos e logrou derrubar dois caças navais americanos sobre Iwo Jima. Mais tarde abateu mais dois aviões americanos, elevando o seu total a sessenta e quatro aviões destruídos.

Sakai acompanhou como escolta um grupo de dezessete Kamikaze, que atacaram a Força-Tarefa da Marinha Americana. Treze aviões foram destruídos pelos caças inimigos antes de atingir o seu objetivo. Os quatro remanescentes, inclusive o de Sakai, regressaram a Iwo Jima, onde os bombardeiros americanos os destruíram no solo.

Um avião-correio acorreu a Iwo Jima para recolher Sakai e dezesseis outros pilotos desamparados. Todos esses aviadores regressaram ao Japão; em seguida, Sakai lutou contra as Superfortalezas inimigas B-29, que então empreendiam ataques em massa contra cidades do Japão.

Em março de 1945, Sakai (então subtenente) e um companheiro foram recomendados pelo almirante Soemu Toyoda, comandante-chefe da Frota Combinada, pelos recordes exemplares de aviões inimigos destruídos. Em agosto de 1945, foi promovido a tenente. Sakai terminou a Segunda Guerra Mundial, como o ás líder dos pilotos sobreviventes.

Em 7 de agosto de 1942, no mesmo dia da terrível prova de Sakai, forças aeronavais japonesas relataram a destruição de cinqüenta e oito aviões inimigos em combate; nessa data a Marinha americana anunciou a perda de vinte e um aviões em combate.

As desesperadas lutas que explodiram com o ataque inicial de 7 de agosto foram o começo de uma série de longas e fatigantes batalhas, nas quais o poderio aéreo japonês foi inexoravelmente solapado. A prolongada guerra aérea entre as forças americanas e japonesas gradualmente, como se o próprio diabo interferisse, debilitou as forças aeronavais, e por fim precipitou o poderio do Exército e das forças navais de superfície japonesas num atoladouro sem fundo, onde se esperava somente a derrota.

Ate aqui a historia. Eu falei ou não falei que valia a pena!

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Avião que Sakai pilotava, o famoso A6M Zero.

Fonte: Gavca.com

Como Saburo Sakai levou seu avião para casa com duas balas na cabeça

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We have a Hulk ;-)


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  • Sérgio Niski Junior

    A guerra é um dos piores lados da humanidade, ao mesmo tempo que li o texto com pena torcendo para ele conseguir eu penso nos outros pilotos que ele matou e que podem até ter passado por uma agonia semelhante sem o mesmo final.

    • Pablo D. P. Ernst

      Olá Sérgio!
      Exato, pensa se todo o esforço, energia e dinheiro que gastamos na guerra o gastássemos em outro campo, seria outra realidade. Este é um tipo de historia que não podemos nos esquecer, por um lado nos mostra como não podemos nos dar por vencido nas piores adversidades e por outro o terrível lado obscuro da guerra onde ninguém é inocente.
      Uma historia ligada a esta, durante a guerra os japoneses não tinham costume de resgatar os seus pilotos perdidos no oceano cair no oceano ou numa ilha perdida era a morte, já os americanos os resgatavam, não por humanidade mas porque um piloto representa 2 anos de treinamento, dinheiro gasto e experiência em combate que não pode ser substituída.

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