Os segredos não contados da guerra das Malvinas

Como toda guerra, a das Malvinas também teve uma parte obscura e secreta. A guerra oculta inclui na sua misteriosa trama o Chile, Peru, Brasil, Estados Unidos, o ditador Kadafi, armas nucleares, os Exocets e uma hipotética invasão ao território continental Argentino.

Um ataque ao continente parece algo irreal hoje, muito mais ainda um ataque com armas nucleares, mas acredite, as opções foram consideradas. Os sentinelas Argentinos que patrulhavam as costas da Patagônia que o digam, de vez em quando soltavam rajadas de metralhadora tentando atingir sombras ameaçadoras que confundiam com comandos do SAS britânicos, talvez produto do estresse e do nervosismo, mas a possibilidade era bem real para eles.

Então vamos ao assunto para contar alguns dos episódios que conformam os segredos não contados da guerra das Malvinas.

O quente assunto das armas nucleares

No livro de Ali Magoudi publicado em 2005 sobre François Miterrand, que era presidente da França na época da guerra, aparece uma passagem que deixou tudo mundo de queixo caído. Miterrand, que vendera armas aos Argentinos antes da guerra incluindo os famosos mísseis Exocets, teria dito que Margaret Thatcher o pressionou para liberar os códigos de desativação dos mísseis. Pressionar é um termo diplomático, o que rolou foi ameaça diretamente. Segundo Miterrand se ele não liberasse os códigos a Thatcher desfecharia um ataque nuclear sobre a cidade de Córdoba, a segunda maior cidade da Argentina.

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Marcas de vitoria num Etendard. Podemos ver o Invincible como danificado.

Isto causou um grande rebuliço geral, a Argentina começou a bater na mesa pedindo explicações, a França se fez de surda e a Inglaterra negou tudo claro. É que falar em “Nuclear” depois de Hiroshima se transformou num assunto proibido, da para entender a histeria.

O fato é que os britânicos tinham 4 submarinos nucleares no atlântico sul e os seus navios iam armados com cargas de profundidade nucleares também. Mas tudo isto foi devidamente negado e o assunto é tão polêmico que o parlamento inglês decretou que todos os registros secretos sobre a guerra de Malvinas (ou Falklands) permanecessem como tais por 100 anos, o normal seriam 50. Vai vendo como ai tem coisa…

O sempre latente perigo dos comandos britânicos do SAS

O Special Air Service que fora criado por Churchill durante a segunda guerra mundial como um grupo comando dedicado a dar alfinetadas nos nazistas nos pontos mal protegidos, desembarcando, causando caos, destruição e sabotagem para logo embarcar e voltar para casa, teve por conta da sua atuação na segunda guerra uma bem ganhada fama de força competente e letal.

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Soldados argentinos

Os Argentinos acreditavam que o SAS faria das suas no sul Argentino atacando bases aeronavais e aeródromos militares executando ações de sabotagem, o que finalmente não aconteceu. O que fica claro é que um ataque do SAS era uma possibilidade real que também faz parte dos segredos da guerra de Malvinas porque a Inglaterra nunca aclarou se planejou realmente realizar ataques ao continente. O que nos leva ao seguinte ponto.

O Brasil entra em campo e também pressiona

Pois é, quem diria. O Brasil também teve parte nesse jogo secreto e do lado da Argentina por incrível que pareça. Arquivos secretos do governo mostram que o Brasil “alertou” (outro termo diplomático) os EUA que não aceitaria que tropas britânicas atacassem o continente americano.

O general João Baptista Figueiredo se reuniu com Reagan, o governo americano tinha a ideia de mediar no conflito. Figueiredo então avisa que as consequências seriam graves se invadissem o continente, levando a um sentimento popular geral de revolta que transcenderia o território argentino, inclusive dando a entender que o Brasil poderia se alinhar com os argentinos.

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Suposta foto do Invincible atingido

Faz sentido, a única coisa que historicamente provocou união entre os habitantes da América latina tem sido sempre a ameaça exterior. Talvez isto tenha dissuadido os ingleses de realizar operações no continente e também explica porque este ponto permanecerá em segredo, admitir que a Inglaterra recuou perante a possibilidade do Brasil entrar no conflito seria muita coisa.

O Brasil rota de armamentos para a Argentina

Entre maio e junho de 1982 aconteceram alguns voos suspeitos de aeronaves argentinas que em rota de ida e volta ate a Líbia do ditador Kadafi, pousavam em Recife para abastecer. Os britânicos tinham certeza que toda a cúpula do governo brasileiro sabia da jogada. Os ingleses tinham informantes no Brasil e um deles conseguiu ver o que um dos aviões carregava. Parece que Kadafi teria entregado armas de todo tipo junto com os temíveis Exocets.

Os ingleses reclamaram, mas sem uma foto do general Galtieri do lado de um Exocet dentro de um avião argentino aonde pudesse se ver claramente um carimbo do aeroporto de Recife, assinado e registrado em cartório, infelizmente os ingleses nada podiam fazer sem provas contundentes. A Thatcher então mandou fazer um estudo sobre as possíveis consequências de derrubar um desses aviões civis ao tempo que pressionava de novo a França para ver se podiam falar com o Kadafi, o que alias foi feito. Parece que Kadafi respondeu que não viu, e nem sabia de nada 😉

Peru e Chile movimentam seus exércitos

A Argentina e o Chile tem uma longa historia de problemas de fronteira que em várias ocasiões até chegaram aos tiros, fora o conflito do Beagle. Quando aconteceu o conflito de Malvinas os chilenos fizeram de tudo para a Argentina perder segundo palavras do próprio general chileno Fernando Matthei.

O Chile não somente apoiou os britânicos em tudo que podiam, também enviou tropas ao sul Argentino em clara ameaça de invasão militar. Os Argentinos tiveram que levar tropas para lá também e toda essa bagunça custou tempo e recursos que deveriam estar empenhados em Malvinas.

Enquanto isso o único verdadeiro aliado argentino, o Peru, além de repassar alguns mísseis Exocets também movimentaram tropas e elementos da marinha para a fronteira com o Chile. O Peru também tem contas pendentes por conta da guerra do Pacífico onde o Chile venceu e tirou amplos territórios do Peru e a saída ao mar da Bolívia. Motivos tinham. Peru só esperava o Chile se movimentar para entrar na guerra o que nunca aconteceu. Nada disto se soube até o 2005. O apoio chileno aos britânicos tinha sido até então um diz que me diz.

O que fica claro é que o Chile apoiou a Inglaterra mas nunca teve intenção de participar na guerra. O exército chileno era bem menor em número, menos armado ainda que igual de preparado que o Argentino. Se comparadas as forças aéreas ai sim a diferença era gritante, o Chile apenas podia dispor de alguns Mirage III quando a argentina tinha um numero superior a centena.

Como resultado do conflito e o desgaste Argentino na guerra começou a haver um equilíbrio de forças entre a Argentina e o Chile. De lá para cá a Argentina nunca mais teria tamanha superioridade e deixou de ser a potência militar que era antes do conflito.

Bônus – Ataque ao porta-aviões HMS Invincible

No dia 30 de maio de 1982 houve uma missão conjunta da Força Aérea Argentina e Aviação Naval que os argentinos chamaram de missão suicida. O objetivo era atacar os porta-aviões ingleses. Um total de 6 aviões conformam o ataque, 2 deles são Super Etendard dos quais um só estava armado com o último dos 5 mísseis Exocets. No post sobre Malvinas eu expliquei o uso de 4 deles, 2 contra o Sheffield e 2 contra o Atlantic Conveyor, ambos navios foram afundados.

Saiba mais sobre como a FAA quase desmantela a frota britânica clicando aqui

A versão Argentina do incidente diz que os 2 Etendard e 4 A4-C armados com bombas chegaram até o objetivo. Os dois Etendard detectam e lançam o Exocet remanescente contra o maior contato de radar e desengancham da ação. Os A4-C seguem a rasto do míssil que viaja a Mach 1.1, ligeiramente mais rápido que os A4 que voavam a Mach .90. Tempo depois os A4 vêem o impacto e a coluna de fumaça preta que se levanta do mar, antes ainda de chegarem dois dos A4 são derrubados e os restantes lançam as bombas sobre o Invincible e fogem.

Os argentinos colocam como prova do sucesso do ataque o fato de que o Invincible inexplicavelmente foi retirado da ação de guerra e parou e fornecer cobertura aérea para a frota, tudo isto retirado das leituras de radar do monitoramento da atividade aérea da frota inglesa. Os argentinos ainda afirmam que pouco depois o Invincible aparece com uma impecável pintura demasiadamente nova para um navio que passou messes no mar em operações de guerra.

A versão britânica, ou melhor as versões, são contraditórias e ai começa o problema. No 1 de abril comunicaram que os argentinos tinham lançado um Exocet porém tinha atingido de novo ao Atlantic Conveyor e que os A4 confundiram este navio com o Invincible.

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Atlantic Conveyor, acho que não da para confundir isto com um porta-aviões, ou da?

No dia 3 de junho desmentiram a versão anterior e explicaram que na verdade o navio atacado era o Avenger e que este navio teria derrubado dois aviões argentinos com mísseis Sea Dart. O furo na historia? Essa fragata não estava armada com esse sistema de mísseis…

No livro “A batalha pelas Malvinas” de Hasting e Jenkins aparece uma nova versão dizendo que a fragata Avenger teria derrubado um míssil Exocet com canhões e não da mais detalhes nem sequer reportou aos A4 que também atacaram.

Já a versão oficial dos britânicos diz que 2 A4 foram derrubados esse dia por mísseis Sea Dart disparados pelo Exceter e menciona a não confirmação do abatimento de mais um por fogo de canhões do Avenger. Também admite o lançamento de um Exocet porém não confirma se impactou no Conveyor ou se foi derrubado pelo fogo dos navios e que os pilotos teriam confundido o Conveyor como sendo o Invincible.

Tudo isto permanece como segredo e os ingleses nunca explicaram porque o Invincible se retira da ação. Em 2082 saberemos, ou não!

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Fontes aquiaqui e aqui.

soldsbritsHarrierGr3crashed

Harrier derrubado pelos argentinos

 

stark

We have a Hulk ;-)

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