Resenha do perturbador filme “O Capitão”

Assisti este filme no final de semana chamado “O Capitão”. Nunca faço resenhas de filmes, mas quem sabe, isso vire um habito por aqui. Esta é a historia de Willi Herold, “O Capitão”. Esta cheio de spoilers, logo, já avisei.

O filme nos avisa de cara que faltam apenas duas semanas para o fim da guerra e que estamos na Alemanha. Primeira cena, um soldado alemão em farrapos, sujo e completamente exausto é visto correndo. De quem? Logo você descobre, de outros alemães! Você não chega a entender imediatamente mas Willi é um desertor, os outros o perseguem para executar-lo. A cena é um carnaval porque os perseguidores estão bêbados e fazem disso uma diversão. Logo você simpatiza com Willi.

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Os perseguidores não parecem querer matar-lo imediatamente, dando oportunidade a Willi de se internar numa floresta onde o caminhão dos seus perseguidores não consegue chegar. Willi esconde-se e evade-se.

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Eu diria que cada cena do filme é importante, mas farei o esforço por contar o que me parece melhor.

Willi esta faminto, e provavelmente seja essa a razão pela qual estava sendo caçado. Provavelmente roubou comida. Ao encontrar um outro soldado perdido e sem apenas falar alguma coisa, os dois a noite, vão ate uma chacra e tentam roubar ovos. São descobertos pelos proprietários, um deles dormia ali mesmo no galinheiro provavelmente para impedir justamente isso.

Os proprietários os ameaçam, e na confusão o colega de Willi morre horrivelmente ao sair do galinheiro. Lembre-se, é duas semanas antes do fim da guerra e o cara morreu por roubar ovos. Alias, o caos é o componente essencial deste filme. Em todo momento você vê as coisas desmoronar.

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A morte é chocante, mas não parece que Willi esteja chocado. Sem duvidas ele já viu muita coisa na guerra.

É neste momento que o filme começa a pegar o rumo da descida. Caminhando por uma floresta, Willi vê um veiculo alemão. Antes de se aproximar olha bem para ver se tem soldados por perto. O carro esta abandonado, mas ao mesmo tempo tudo esta em ordem. Como se momentos antes o dono ainda estivesse ali mesmo.

Ao olhar dentro do veiculo, dentro ha uma mala e um cesto de maças. Willi tem urgência da duas coisas, esta faminto, suas roupas em frangalhos e passa frio. Ao ver o agasalho militar ele percebe, trata-se de um uniforme de oficial, especificamente, de um capitão da Luftwaffe (força aérea alemã). A cena é tensa, você pensa que o verdadeiro dono de tudo isso vai aparecer a qualquer momento e que se passar por um capitão pode terminar em execução.

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Willi veste o impecável uniforme, que fica grande. A câmera mostra a cara do Willi no momento em que um outro soldado aparece, possivelmente desertor também. Os dois ficam surpresos e por um momento ha um silêncio. O soldado assume a posição de um soldado na frente de um oficial verdadeiro, explicando nervosamente que perdeu-se da sua unidade (suspeitamos que não foi assim), e que pede permissão para se juntar a ele.

Nesta parte o ator interpreta magistralmente a cena, você vê a expressão de quem se deu conta do que deve fazer imediatamente, sem palavras. Ele manda o soldado se calar, pede o livro de identificação e registro de serviço. Faz perguntas como qualquer oficial faria, e termina por permitir que se junte a ele dando ordens ao soldado.

Aqui nosso soldado Willi encarnou finalmente “O Capitão”.

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Daqui para frente o filme entra num buraco, e a cada cena o protagonista entra mais e mais fundo. Ha um momento determinante porém. Willi e seu subordinado param a noite numa taverna qualquer. Ha tensão no ar, a população esta cansada da guerra, a guerra esta acabando e ninguém quer morrer a toa. Willi assume seu papel e logo é servido. Antes de dormir o dono da taberna grita na janela do quarto dele. Willi observa a cena, eles pegaram um outro desertor roubando comida.

Willi desce e enfrenta o grupo. O dono da taberna diz que como oficial que é, deve dar solução ao problema dos roubos de forma exemplar. Willi olha para o prisioneiro, e sem mediar palavra, tira a pistola e o executa friamente, vira as costas e vai dormir, e pior, todos parecem estar satisfeitos como se fosse isso exatamente que estavam esperando dele, menos claro, o soldado que o acompanha porque ele mesmo é desertor! Se você não percebeu, esta cena é perturbadora. Ele executa um desertor sendo ele mesmo um desertor que quase foi executado também. Aqui o capitão acabou de atravessar a linha moral que o separa da insanidade para o lado obscuro.

Willi vai encontrando outros soldados desgarrados, cria uma unidade fictícia e adiciona a quanto desertor encontra pelo caminho. Um destes soldados que ele encontra sabe inclusive que Willi é um oficial falso ao ver que o uniforme não lhe serve bem, mas, aproveita-se da situação. Aqui se cria uma relação, porque os desertores, sendo desertores, não querem lutar e nem serem pegos, e nem morrer claro. Willi, como capitão, da essa legalidade e proteção a algo que é claramente ilegal.

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O capitão e a sua unidade imaginaria

Todos juntos seguem seu caminho e Willi continua interpretando muito convincentemente seu papel, quando é detido por um grupo das SS que percorre as linas buscando desertores. Willi convence o oficial dizendo que fora enviado pelo próprio Furher para “resolver” o problema dos desertores. O oficial comprou a historia justo quando estava pronto a executar todo seu grupo e ele mesmo se descobrisse que não tinha documentos de “capitão”.

Dai para frente Willi é levado para um campo onde só tem desertores alemães. Willi diz que a sua missão é resolver o problema. Um oficial nazista entusiasta coincide com ele e os dois passam por cima da autoridade judicial para por em marcha um plano para executar todos os prisioneiros. Aqui é extremamente bizarro tudo, eles passam horas para executar ao redor de 90 prisioneiros da forma mais cruel possível, dando lugar a situações surreais.

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Desertores executando desertores, essa é a contradição. Durante o caos do fim da guerra é cada um por se. A unica coisa que passa pela cabeça é encher o estomago e não morrer nem que isso signifique assassinar a própria consciência no caminho.

O campo é bombardeado e quase todos morrem, menos Willi e seu grupo de miseráveis. Já todos cruzaram a fina linha da moralidade faz muito tempo, logo, convertidos em animais, seguem seu caminho, assassinando, roubando e se divertindo. Um exemplo disso é que quando o grupo chega numa pequena cidade, na prefeitura tinha uma faixa com a palavra “Welcome”, isso foi mais do que suficiente para o grupo assassinar o prefeito da cidade.

É aqui que o grupo passa suas ultimas horas festando ate serem capturados pela policia militar descobrindo finalmente que Willi era só um soldado. Preso e julgado, mais uma vez ele se evade e se perde na escuridão de uma floresta cheia de esqueletos humanos. Pura simbologia essa cena.

Ate aqui o texto não faz jus ao que você vê em imagens. Você pensa que toda a historia é fruto da mente retorcida de algum escritor, é bizarra de mais e humanamente improvável. Algo dentro de você se recusa a aceitar as coisas. Lembre-se, no começo do filme você é simpático a Willi. O filme não somente tira isso de você, tira também qualquer tipo de justificativa ao que aconteceu.

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Até aonde você iria para sobreviver?

Agora a bomba. Antes dos créditos finais aparece um texto dizendo que o filme é baseado em fatos reais!!! Como assim!!!?? Eu vi o filme achando que era ficção, pensando comigo mesmo que humanos não eram capazes de tudo aquilo!

Obviamente fui pesquisar e não é que tudo é real! Claro que tem detalhes que não tem como saber, mas a historia esta la. Tudo é bizarro de mais. Willy Paul “Willi” Herold, também conhecido como o “Assassino de Emsland”. Acusado de matar 125 pessoas.

A historia real

Willi foi chamado para serviço militar no ano 1943 indo treinar com uma unidade de paraquedismo. Como soldado atuou na Itália, sendo condecorado com a cruz de ferro por ter destruído dois tanques ingleses. Participou da pior e mais feroz batalha do fronte italiano em Montecassino. Pela suas ações foi ascendido a cabo. No final da guerra, a sua unidade foi transferida do relativamente tranquilo fronte italiano para defender a Alemanha. Algumas semanas depois, tendo perdido a sua unidade, Herold acha um carro do exercito abandonado e dentro uma mala com um uniforme de capitão da Luftwaffe.

Daqui para frente a historia permanece quase como a do filme. Ele é presso pelo exercito e condenado, porem no caos do final da guerra foi solto por engano. Herold volta para a sua terra natal e arruma um emprego. Algum tempo depois ele é novamente presso, desta vez pelos britânicos por roubar pão. Nas investigações os ingleses conseguem o identificar e o acusam de crimes de guerra. Ele e mais alguns outros que também participaram do massacre são condenados e executados na guilhotina (sim, você leu corretamente).

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Que historia bizarra!

Uma curiosidade. Num momento dado do filme, Willi encontra dois artilheiros de uma bateria anti-aerea. Um deles tem pintada uma caveira no capacete. Esse tipo de caveira não era usada pelos alemães e sim pelos soldados finlandeses.

A resenha do filme O Capitão você viu aqui no Instigatorium. Gostou? Deixa um comentário.

Fonte aqui.

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We have a Hulk ;-)

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